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Aos sentidos do nativo, o sobrenatural cristão
era o aspecto mais alienígena da realidade do “outro”
e justamente ao que os missionários desejavam que os nativos aderissem.
Seu referente era invisível e não tinha ancoragem local.
A tarefa missionária teria características ambíguas:
fácil, pois ambas culturas valorizavam o surreal e o subjetivo;
impossível devido a como cada um dos grupos concebiam esses elementos
transcendentais. Os mal entendidos se multiplicavam.
Evangelizadores e conquistadores, por sua vez, não fizeram por
menos e tomaram as entidades sobrenaturais indígenas por manifestações
múltiplas de Satanás. Acusados de instigar os índios
à revolta, de coloca-los contra o cristianismo, os demônios
foram os grandes protagonistas dos primeiros anos da colonização.
De modo que, longe de ser completamente negada, uma parte das culturas
indígenas representava, para os religiosos, a realidade ameaçadora
e negra do demoníaco.
A igreja e os índios não associavam as mesmas fronteiras
ao real. A igreja, sobretudo, restringia seu território. Em geral,
excluía estados aos quais as culturas indígenas concediam
um significado decisivo (sonho, alucinação, embriaguez),
uma vez que elas encorajavam a produção e a exploração
das imagens que suscitavam e dos contatos que permitiam estabelecer com
outras forças. A Igreja condenava o consumo de alucinógenos
(o mais comum sendo o cauim, bebida fermentada feita de milho), fontes
de ‘alienação, de visões e de delírios’,
caminho certo para a loucura e a luxúria, e denunciava a embriaguez
sob todas as suas formas, englobando na mesma reprovação
formas rituais e sagradas próximas do êxtase e da possessão.
Era preciso
fazer com que os índios conhecessem os conceitos e critérios
que organizavam a realidade definida pela Igreja.
O catecismo e a pregação foram os principais canais do apostolado
dos missionários, que continuamente se chocavam com os limites
da palavra. Como fazer entender e ver seres, figuras divinas e planos
do além sem nenhum equivalente nas línguas indígenas
ou nas representações locais, senão por aproximação
que deturpavam seu sentido e sua forma? Tudo levava à confusão
e ao mal-entendido.
A imensa tarefa que os religiosos empreendiam chocava-se com obstáculos
intransponíveis. A alternativa era tão simples quanto frustrante:
ou utilizar uma terminologia ocidental, totalmente hermética para
os índios, ou lançar pontes, estabelecendo equivalências
que seriam fontes de infinitos mal-entendidos.
Anchieta
usou um grande número de elementos pagãos no enredo de suas
peças, misturando o natural com o supernatural, realismo e simbologia,
dança e música, em nome da conciliação, apesar
da aparente incompatibilidade dos hábitos, valores, tradições
e psicologia indígenas com valores morais e espirituais da Igreja.
Através de seus textos em língua indígena, Anchieta
traduz a tradição literária ibérica para a
cultura do nativo: a rima, a métrica e o ritmo são característicos
da versificação românica; a sonoridade é Tupi.
A criação de obras teatrais, com suas danças e cantares,
deixava clara a ideologia catequética. Essas obras, que traduziam
conteúdo e forma europeus para a língua dos nativos, faziam
concessões a elementos da cultura e imaginário indígena.
Bosi afirma:
“Na passagem de uma esfera simbólica para a outra Anchieta
encontrou óbices por vezes incontornáveis. Como dizer aos
tupis, por exemplo, a palavra pecado, se eles careciam até mesmo
da sua noção, ao menos no registro que esta assumira ao
longo da Idade Média européia?”
Quando tentavam
classificar os índios com os conceitos de bem e de mal, os europeus
projetavam seu próprio imaginário sobre eles; em outras
palavras, os visualizavam como suas próprias sombras uma vez que
traziam consigo “seu próprio Lúcifer nos porões
dos navios”. Em termos etnológicos, os colonizadores aparentemente
não tinham o conceito de “alteridade”. O demônio
parecia ser um elemento estranho aos Tupis. As divindades dos nativos
eram relativamente neutras, nem boas nem más. Elas não se
encaixavam na visão dialógica do universo na qual forças
opostas eram vistas como recíprocas e complementares. As entidades
indígenas não possuíam poderes extraordinários
e destrutivos, contudo não eram exatamente relacionados com algo
que os cristãos considerassem “demoníaco”.
Anchieta escolheu Anhanga como a concepção de demônio
para os índios. Anhanga, de acordo com o imaginário indígena,
era o protetor da selva e dos animais e tinha destreza e força
sobrenaturais. Anchieta deve ter feito essa escolha mais pelo medo que
Anhanga impunha sobre os nativos do que mesmo pela sua essência
“diabólica”.
O método mais eficiente de destruir os mau hábitos dos indígenas
havia sido descoberto rapidamente: generalizar o medo entre os nativos
e estendê-lo a todas entidades que poderiam se manifestar nos transes
e nas cerimônias dos nativos que abriam caminho ao retorno dos mortos.
Nessa época, bruxas e magos eram perseguidos por toda a Europa.
O imaginário dos europeus em solo americano estava impregnado com
a visão de formas paralelas de religião ou seitas pagãs.
Tendia-se a interpretar as manifestações religiosas dos
indígenas como uma espécie de “demonolatria”,
na tentativa de classificá-las de acordo com elementos familiares
aos europeus. Se na Europa rituais pagãos eram condenados e suprimidos,
tendo seus poderes neutralizados por encobrirem a verdade, na América
o europeu tinha que exterminar a herança da igreja pagã. |