Eram os pajés os conhecedores dos caminhos e maneiras para alcançar a Yvy Marãey, a Terra Sem Mal.
Os pajés dos apapocuvas, horda de índios guaranis que viviam originalmente no extremo sul do estado de Mato Grosso do Sul, acreditavam que a terra plena se situava a leste, além do mar.
Para alcança-la, os índios punham-se em uma longa e difícil jornada.
Esses deslocamentos em solo brasileiro constituíam uma das principais características do modo de ser dos indígenas, que buscavam conscientemente seu rekohá (salvação), Esses nativos eram liderados por pajés inspirados por sonhos e visões. Suas pregações baseavam-se na questão do mal; acreditava-se que o mundo havia ficado ruim demais e não se podia ficar nele por mais tempo, deveriam abandoná-lo para instalar-se na terra onde o mal estava ausente.
Grupos Guarani reviveram historicamente este mito por séculos.

"Os primeiros que abandonaram a sua pátria migrando para o leste foram os vizinhos meridionais dos Apapocuva: a horda dos Tañyguá, sob a liderança do pajé chefe Ñanderyquyní, que era temido feiticeiro. Subiram lentamente pela margem direita do Paraná, atravessando a região dos Apapocúva, até chegar à dos Oguauíva, onde seu guia morreu. Seu sucessor, Ñanderuí, atravessou com a horda do Paraná - sem canoas, como conta a lenda - pouco abaixo da foz do Ivahy, subindo então pela margem esquerda deste rio até a região de Villa Rica, onde cruzando o Ivahy, passou-se para o Tibagy, que atravessou na região de Morro Agudos.

Rumando sempre em direção ao leste, o pajé atravessou com seu grupo o rio das Cinzas e o Itararé até se deparar finalmente com os povoados de Paranapitinga e Pescaria, próximos a Itapetinga, cujos primeiros colonos nada melhor souberam fazer que arrastar os recém-chegados a escravidão. Eles, porém, conseguiram fugir, perseverando tenazmente em seu projeto original, não de volta para o oeste, mas para o sul, em direção ao mar. Escondidos nos ermos das montanhas da Serra dos Itatins fixaram-se então, a fim de se prepararem para a viagem milagrosa através do mar à terra onde não mais se morre."

As migrações avançavam muito lentamente, impondo aos participantes as mais severas privações. Os velhos debilitados e as crianças pequenas atrasavam a caminhada. As danças de pajelança de todas as noites e as prescrições de jejum tornavam difícil achar alimentos adequados. Destes, o mel erro o principal, mas também era difícil de ser encontrado em quantidade suficiente para tantos.
Não havia retorno para esses caminhantes. Conta-se que inclusive um grupo transpôs as águas do Paraná graças ao poder mágico de seu pajé.

Quando os caminhantes tinham a ventura de alcançar o litoral e depois que haviam superado razoavelmente o medo diante da visão inusitada do mar, retiravam-se novamente um pouco para o interior, erguiam uma casa de dança e começavam a dançar com o objetivo de atingir o Yvy Marãey através das águas. Então o xamã caminharia por cima (pelo ar), seus discípulos seguiriam pela terra e a água estaria seca para eles.
Assim dançavam centenas de índios, cheios de entusiasmo e esperança junto ao mar: então vinha a terrível decepção e o xamã se defrontava com a imperiosa necessidade de encontrar uma explicação para o fracasso do empreendimento. Havia ocorrido algum erro, que anulara toda a magia e que, freqüentemente, fechava para sempre o caminho para o Além aos peregrinos.

A grande massa Guarani está hoje totalmente convencida de que já não poderá alcançar a Terra Sem Mal como fizeram outrora os antigos.
Longe de duvidar da existência deste paraíso e de considerar o fato impossível em si, eles explicam sua limitação argumentando que seu corpo adquiriu um peso invencível devido ao consumo de alimentos europeus (sal, carne de animais domésticos, cachaça, etc.), bem como pelo uso de vestimentas européias.

No início do século XX, o indigenista Curt Nimuendaju Unkel acompanhou de perto uma dessas movimentações proveniente do interior rumo ao mar. Ao inteirar-se de que meia-dúzia de índios Guarani encontravam-se acampados às margens do rio Tietê, Unkel dirigiu-se imediatamente ao pequeno acampamento.
Eram autênticos índios da floresta, com o lábio inferior perfurado e arcos e flechas, sem conhecimento do português e falando somente algumas palavras em espanhol. Era o que restava de um grupo maior que aos poucos no caminho ficara reduzido a seis pessoas.

O alemão encontrou-os extenuados, em terrível estado de miséria. Uma criança havia morrido naquela primeira noite em que Nimuendaju os encontrara.
O grupo desejava atravessar o mar, tamanha era sua confiança no sucesso de alcançarem a Terra sem Mal.
Após tentar várias vezes fazê-los mudar de idéia e convence-los a seguirem para a Reserva do Arariba, Unkel rendeu-se à persistência dos índios e resolveu segui-los até o fim da jornada.

Após três dias caminhando chegaram à Praia Grande, no litoral sul. Era noite, estava chovendo e, naturalmente, os índios não conseguiram enxergar o mar. Após essa noite chuvosa, o dia seguinte raiou límpido. Em frente ao mar, puderam, estarrecidos, contemplar o espetáculo grandioso da natureza. Um espetáculo que aqueles guaranis nunca haviam visto, que frustrou de modo brutal todas as suas expectativas de alcançarem a "Terra sem Mal" pelo mar.
Segundo Unkel, “eles haviam aparentemente, imaginado o mar de forma totalmente diversa e, sobretudo, não tão terrivelmente grande. Sua confiança havia sofrido um golpe violento".

Esta fantástica experiência não modificou apenas o modo desse antropólogo alemão encarar a sociedade Guarani, como a partir de então, iria influenciar de maneira decisiva, o modo como a maioria dos antropólogos passaria a ver os Guarani.
Quando chegaram ao litoral, terminara sua viagem horizontal e histórica. Iniciava-se então a caminhada que deveria, através da dança, tomar um rumo vertical. Dançaram três dias até a exaustão e então veio a terrível decepção, o fracasso.