Séculos antes da chegada dos Guarani provenientes do sul, nosso litoral era habitado por índios Tupi. Por volta de 1500 a grande nação Tupi, que compreendia algo entre 2 e 4 milhões de indivíduos, se estendia da costa do atual estado do Maranhão ao litoral de Santa Catarina. Foram esses povos que primeiro tiveram contato com o europeu no raiar da colonização portuguesa em terra brasílica.
Em contato com o homem branco, em um primeiro momento caíram-lhes do céu presentes maravilhosos como espelhos, facas, panos. Depois foram-lhes pedido algo em troca: trabalho, mulheres, índios prisioneiros de tribos inimigas e pau-de-tinta.
O índio aprendia fazer tratos comerciais sem poder reconhecer as desproporções desses tratos. O comércio foi apenas uma das portas por onde infiltraram-se a corrupção e a falência de sua cultura, fosse por bem ou pela força.

Atrás do comerciante, vinha o guerreiro e o missionário.
Os nativos por sua vez não podiam fazer do português-invasor um contrário como outros contrários O contrário era da mesma raça e de mesma cultura, eminentemente presente. Em linguagem “contrária” todos se entendiam. Já aqueles homens de barbas do além-mar vieram como diferentes, nem como amigos nem contrários.
O principal instrumento de “ajustamento cultural” usado nas relações entre brancos e índios brasileiros a partir do século XVI foi a ação dos jesuítas. O diálogo intercultural foi precário; a religião foi entregue pronta, traduzida para o tupi, com analogias ineficientes do deus e demônio europeus com as entidades supernaturais dos nativos.

Índio aprendia a rezar o Ore Rub (Pai Nosso), só que as palavras “reino” e “tentação” eram mantidas em português por falta de correspondentes na língua dos nativos.
A palavra pureza foi traduzida como “moro-potar-e´yma” ou “não desejar sensualmente as pessoas”. Pecado foi traduzido como “tekó aíba” ou “vida ruim”. Confusões entre confusões, Tupã, divindade que se manifestava pelo trovão, assumia o papel do deus salvador e Anhanga, entidade protetora das matas e animais, se posicionaria no outro extremo da arena, personificando o senhor das trevas e de todos os males.
O europeu cristão julgava abominável o nativo comer carne humana em seus rituais apesar de ele próprio comer o corpo e beber o sangue de seu Deus em suas celebrações. Usava-se dois pesos e duas medidas.

O índio tinha que começar a ver o mundo com um olhar dualista: tudo pertencia ora ao bem, ora ao mal. Beber cauim à noite, desejar mulheres, abandonar a aldeia, ficar sem ouvir a missa, dançar, adornar-se, curandeirar, pintar as pernas, fazer-se negro, comer um ao outro, fumar, amancebar-se: eis tudo que naquele momento o índio devia esquivar-se. “Seus olhos se abriram e souberam que estavam nus”, como o citado na Bíblia, no livro do Gênesis.

Já não havia mais tranqüilidade. Buscando a Terra sem Mal, depararam com a Terra dos Males sem Fim. Por fim, o pedido de doutrina era a súplica do nativo. A declaração da impotência a que se viu reduzido.